Nem Sherlock Holmes, nem CSI: o que realmente faz um Auditor Independente
A profissão do auditor independente ainda é cercada por uma série de percepções distorcidas, muitas vezes alimentadas por escândalos corporativos amplamente divulgados. Há uma clara assimetria informacional sobre os limites e o papel real da auditoria. Em diversos contextos, a sociedade deposita uma expectativa irreal sobre o trabalho do auditor, acreditando que ele deve atuar como um “detetive de fraudes” ou “investigador” de erros escondidos, o que não condiz com os fundamentos da atividade.
Com o objetivo de reduzir essa lacuna de entendimento, o IBRACON lançou a série de artigos “Mind the Gap”, que busca explicar de forma clara e objetiva os gaps de expectativa relacionados à atuação do auditor independente. Trata-se de uma iniciativa essencial para alinhar a percepção pública ao verdadeiro escopo da auditoria.
Como auditor independente, entendo que é essencial esclarecer que a elaboração das demonstrações financeiras é responsabilidade exclusiva da administração da entidade. O auditor não participa da produção dessas peças, pelo contrário, as normas da profissão vedam qualquer envolvimento nesse processo, justamente para preservar a independência e objetividade do exame.
A atuação do auditor consiste na emissão de um relatório de opinião, com base em evidências obtidas durante a auditoria, indicando se as demonstrações financeiras estão em conformidade com as normas contábeis aplicáveis e livres de distorções relevantes. Essa opinião é fundamentada em procedimentos baseados em materialidade, julgamento profissional e amostragem estatística, o que significa que a auditoria oferece uma segurança razoável (e não absoluta) sobre as informações auditadas.
Entre os principais conceitos técnicos envolvidos na auditoria, destaco:
- A definição de materialidade e o impacto que ela tem na determinação do escopo do trabalho;
- A avaliação de riscos de distorção relevante e o consequente plano de auditoria;
- A execução de testes substantivos e de controles, com base em metodologias bem definidas;
- As distinções entre Auditoria Interna e Auditoria Independente, incluindo os critérios para aproveitamento de trabalhos da auditoria interna pelo auditor externo, quando cabível e permitido pelas normas profissionais.
Além de fornecer asseguração aos usuários externos das demonstrações, a auditoria independente também pode gerar valor para a própria entidade auditada. Durante o exame, o auditor pode identificar falhas ou oportunidades de melhoria em processos e controles internos, comunicando tais pontos à administração com recomendações técnicas baseadas nas melhores práticas de governança e gestão de riscos.
É importante lembrar que o auditor não tem um papel de fiscalização contínua, nem de detecção exaustiva de fraudes. Sua função é técnica, planejada e baseada em riscos, dentro de parâmetros normativos internacionais e nacionais.
A série “Mind the Gap” do IBRACON representa um esforço valioso para educar o público, inclusive profissionais de outras áreas, sobre o real papel do auditor. Quanto mais essa compreensão se espalha, mais fortalecida se torna a confiança na informação contábil e no papel da auditoria como instrumento de credibilidade, transparência e governança.
A Comissão de Auditoria Contábil do CRC-CE segue comprometida com a educação técnica, o esclarecimento da sociedade e o fortalecimento da profissão contábil.
Para saber mais sobre a série, acesse:
https://www.ibracon.com.br/mind-the-gap-a-serie-do-ibracon-que-aborda-o-papel-da-auditoria-independente-e-os-gaps-de-expectativa-existentes-envolvendo-a-sua-atuacao/ |